Antes dos carros perderem as curvas
Os carros estão perdendo suas curvas. Entre o avanço dos elétricos e uma estética cada vez mais dominada por retângulos, telas e superfícies lisas, o desenho automotivo caminha para uma linguagem mais fria, mais digital; e menos sensorial. Talvez por isso, nós da RARO CLUB, achamos que vale a pena voltar no tempo e revisitar uma das curvas mais marcantes já desenhadas por um fabricante: o arco do Porsche Targa.

Créditos da imagem: Excellence: The magazine about Porsche
O mais irônico é que essa curva não nasceu de um capricho estético. Ela nasceu de uma crise. Em meados dos anos 1960, uma ameaça regulatória real nos Estados Unidos colocava em risco a venda de carros conversíveis. A resposta da engenharia da Porsche foi um desenho que ninguém tinha visto antes: um arco estrutural fixo, que ao mesmo tempo resolvia o problema de segurança e criava uma das silhuetas mais reconhecíveis da história automotiva. Aquela curva não é só bonita. Ela salvou um modelo inteiro.
Sabemos que uma história tão rica e revolucionária dificilmente caberia em um único blog. Mas também sabemos que, no mundo contemporâneo, entre vídeos de 30 segundos e um volume de conteúdo que nos absorve diariamente, um relato longo correria o risco de nunca ser lido até o fim. Por isso escolhemos um formato mais direto: perguntas e respostas rápidas, pensadas para quem está descobrindo agora esse universo; essa nova geração de entusiastas que está se formando justamente numa era em que os carros parecem estar perdendo suas curvas.
Se você já é um apaixonado pelo Targa e conhece essa história em profundidade, não se deixe enganar pela simplicidade do formato. Ao contrário! Te convidamos a participar dos comentários e enriquecer esse relato com o que você sabe sobre essa história.
01. Por que o Porsche 911 Targa se chama Targa?
A Porsche queria homenagear uma pista onde a marca acumulava vitórias históricas, e o nome cogitado inicialmente seria “911 Flori”, em referência direta à Targa Florio: lendária corrida de estrada disputada nas montanhas da Sicília desde 1906, e um dos eventos mais desafiadores do automobilismo mundial da época.

Créditos: Revista Cefaly – Visity Sicily
Foi o executivo de vendas Harald Wagner quem sugeriu, então, simplificar para apenas “Targa”. Só depois, ao produzir o material publicitário, a equipe de marketing da Porsche descobriu uma coincidência feliz: a palavra “targa” também significa “placa” ou “escudo” em italiano, reforçando ainda mais o significado do arco de proteção que dá nome ao modelo.
02. Por que a Porsche Targa foi criada?
O Porsche 911 Targa nasceu em 1965 como resposta da Porsche a uma ameaça regulatória nos EUA contra carros conversíveis. Seu desenvolvimento foi longo, disputado internamente e cheio de reviravoltas (muito diferente da imagem de sucesso instantâneo que o modelo tem hoje). O projeto levou quase três anos entre a concepção inicial (janeiro de 1962) e a produção de fato (fim de 1966), passando por pelo menos três propostas de design concorrentes dentro da própria Porsche. A versão final só entrou em produção no final final de 1966, mais de um ano depois de ser apresentada pela primeira vez ao público em Frankfurt, em 1965.

Créditos da imagem: Blog RS Selection
03. Por que a Porsche precisou de um arco estrutural (roll bar)?
O motivo principal não era só estético, mas estrutural. A carroceria do 911 (então chamado 901) já operava no limite de rigidez mesmo na versão fechada, e testes de durabilidade iniciais revelaram falhas na estrutura. Um protótipo de conversível total, testado em 1964, não tinha rigidez suficiente e vazava água pelas frestas. A solução veio do próprio designer Ferdinand “Butzi” Porsche: um arco fixo atrás dos bancos, que devolvia parte da rigidez lateral perdida com a ausência do teto e que, décadas depois, se tornaria justamente a curva que estamos aqui para celebrar.
04. O protótipo do Targa passou em todos os testes de primeira?
Não. Logo após a estreia em Frankfurt, em novembro de 1965, um protótipo do Targa foi submetido a um teste de capotamento (queda de uma altura de cerca de 2 metros, de cabeça para baixo), falhando para surpresa dos engenheiros. Só depois que o engenheiro chefe, Werner Trenkler, reforçou a estrutura é que um protótipo revisado passou nos testes de resistência da pista de provas da Volkswagen.
05. A equipe de vendas gostou do design assim que viu?
Não imediatamente. Harald Wagner, o executivo de vendas responsável por defender a criação de uma versão aberta do 911, admitiu depois que o visual do Targa não o convenceu à primeira vista. Ele descreveu a impressão inicial como um 911 “desfigurado por enormes estribos de metal”. Mesmo assim, ele seguiu apoiando o projeto, e o Targa se tornou um sucesso de vendas rápido: já em 1967, a demanda na Alemanha Ocidental chegava a 40% da produção total do 911. A curva que hoje é celebrada quase não sobreviveu à primeira impressão de quem precisava vendê-la.

Créditos da imagem: The Telegraph
06. O nome quase foi outro?
Sim. Durante o brainstorm de nomes, a equipe cogitou batizar o carro de “Targa Florio” (a corrida que o inspirou), mas temiam que os clientes abreviassem para apenas “Flori”, som considerado piegas demais para o mercado. A solução foi simplesmente remover a palavra “Florio” e manter só “Targa”, que em italiano também significa “placa” ou “escudo”.
07. Quantas unidades saíam de fábrica por dia no início?
Bem poucas. Quando a produção começou, no fim de 1966, a Porsche fabricava apenas 7 unidades do Targa por dia, dentro de uma produção total de cerca de 55 unidades do 911 por dia. Mesmo depois de a produção subir para 10 unidades diárias em 1967, a demanda continuava maior que a oferta. Ao final do ciclo do modelo F, dos 112 mil exemplares produzidos, mais de 23 mil eram Targas.

Créditos de imagem: RARO CLUB
08. O primeiro Porsche Targa de produção teve algum destino especial?
Sim; e é uma curiosidade e tanto. Um dos primeiros Targas produzidos, em dezembro de 1966, foi também o Porsche número 100.000 fabricado pela marca. Esse exemplar específico foi entregue à polícia estadual de Baden-Württemberg, na Alemanha, equipado com sirene e luz de emergência. A Porsche inclusive promoveu ativamente o uso do Targa como viatura policial na época.

Créditos da imagem: Excellence: The magazine about Porsche
09. A curva do Porsche Targa sobreviveu até hoje?
Não exatamente sem interrupção (e essa é talvez a parte mais reveladora dessa história para quem se preocupa com o desaparecimento das curvas hoje!). A versão original do Targa, com arco estrutural fixo e capota removível manual, foi produzida até 1993 (geração 964). Entre 1996 e 2020, a própria Porsche abandonou essa curva: adotou um teto solar de vidro deslizante, sem o arco visível, uma escolha mais “reta”, mais funcional, e comercialmente discreta. Só a partir da geração 991, em 2014, o icônico arco Targa voltou ao design, num gesto quase deliberado de resgatar aquilo que havia sido perdido. A geração atual (992), lançada em 2020, mantém essa homenagem ao desenho original de 1965 , atualizado por tração integral de série e um sistema de teto elétrico sofisticado. Ou seja: mesmo a Porsche, em algum momento, cedeu à tentação das linhas retas, e depois voltou atrás.
10. Onde posso encontrar um Porsche Targa hoje?
A RARO CLUB tem atualmente dois exemplares do 911 Targa 4 GTS (geração 992) disponíveis no catálogo. A mesma curva de 1965, reinterpretada com 480 cv e tração integral:
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Porsche 911 Targa 4 GTS 2023
R$ 1.150.000,00 -
Porsche 911 Targa 4 GTS 2022
R$ 1.050.000,00

